4 de julho de 2016

Preconceito em Portugal!

Sempre que discorro aos amigos sobre o pouco tempo que vivi em Portugal (de maio de 2007 à junho de 2011) procuro não falar sobre coisas ruins - apenas exalto o quão bom foi ter a oportunidade de "viver e respirar novos horizontes".  Infelizmente a minha decisão de morar fora foi mais uma "fuga" do que um desejo.

Naquela época eu sequer sonhava em viver longe de meu país! AMO O BRASIL!  Sempre imaginei-me fazendo viagens turísticas a outros continentes - todavia, MORAR fora não estava nos meus planos.  Antes, inclusive, eu pensava assim: como pode as pessoas ficarem sonhando em morar fora do país, trabalhar "duro", ser "escravos", discriminados e mal tratados pelos "nativos"?!  - Se pelo menos fosse com finalidade educativa...!

por esquilho.wordpress.com
O fato é que acabei fazendo o que tantos no meu país, e no mundo, fazem: IMIGREI! O dinheiro que levei não era pouco, mas gastei com viagens; algum tempo depois tive que trabalhar para poder pagar as despesas com moradia e comida - no último ano que lá estive, até ir para uma Faculdade fazer Mestrado, eu fui, infelizmente durou pouco; já estava saturada dos trabalhos, o salário era pouco, mal dava para essas despesas e a consideração e o respeito pela pessoa do imigrante (no caso - EU), menor ainda!

Quando disse, no primeiro parágrafo, que essa "estadia" em Portugal, mas especificamente Lisboa, foi tida como uma fuga não devem tomá-la ao pé da letra!  Vivia dias difíceis por aqui!  Recém separada de alguém que gostava muito, passava os dias deprimida; o que fazia era gastar o que tinha e o que não para sentir-me com a mesma qualidade de vida de antes - só que já não tinha; acabei por acumular dívidas, por fim tive que vender meu automóvel para pagá-las - com o restante aproveitei a ida de uma amiga para o país em questão e acabei por acompanhá-la.

O fato é que a vida longe de casa não é fácil - os "fracos" não sobrevivem aos 3 meses que o bilhete de volta "segura"!  Confesso que só sobrevivi porque fiz do "limão uma limonada" e a "enfiei goela abaixo"; no entanto, antes disso acontecer fui me divertir já que havia chegado com algum recurso e naquele momento ainda não me via trabalhando em restaurante!  Aproveitei as possibilidades que Europa dá aos que já estão em seu território e fui viajar.  Com isso acabei por conhecer quase todo o país com viagens de baixo custo (de ônibus; com excursão; de tren e vôos Low Cost); com tren e avião fui a lugares mais distantes (Espanha, Itália e Alemanha).  

Nessas viagens o lance é comer pouco, andar muito e se hospedar em albergues, hostals ou pousadas baratas - quando se tratava de uma excursão de autobus a reserva era feita antecipadamente e em quartos múltiplos, assim, tudo fica mais barato, além do mais é divertido; quem curte fazer amizade é perfeito!

No entanto, como dito anteriormente, chegou um momento que o dinheiro acabou!  Foi pensando nisso que, antecipadamente, redigi um contrato de doméstica e passei a um amigo para assiná-lo como sendo sua funcionária, dessa forma consegui visto de trabalho. Muito imigrante que chega lá faz isso, não fui a primeira; sorte de quem ainda tem alguém que aceite passar-se por patrão!  A partir daí pude procurar emprego "legal", com alguns direitos; sem visto praticamente não há oportunidade de trabalho - se com ele só se encontra sub-emprego, sem ele então é tudo mais difícil!

Os salários lá são como cá - baixos, iludidos são os que saem daqui em busca de melhores; os ambientes são ruins; colegas e patrões te humilham - inclusive colegas brasileiros que se acham importantes, os "supras-sumo" só porque são mais antigos no ambiente que você.....; pessoas que te ridicularizam se você diz ter um grau de estudo superior ao deles - zombam, riem da sua cara dizendo que você é otária porque está ali se submetendo àquilo (isso quando acreditam); outros agem diferente: deixam de falar contigo porque acreditam que você não pode, DEFINITIVAMENTE, ter aquele grau de escolaridade, ou aquelas condições de vida que diz ter em seu país - para a maioria dos imigrantes e para os nativos você nunca poderia ser melhor, mais instruída que eles uma vez que imigrou e está servindo às mesas ou lavando pratos!

Todavia, não é somente no ambiente de trabalho que as brasileiras sofrem preconceito em Portugal. Quando estão na balada, nos centros comerciais, nos parques, nos cafés - qualquer sítio é local "propício" para sermos tachadas de "putas" ou "trabalhadoras de bar de alterne" que é quase a mesma coisa!  Certos fulanos(as) são bem difíceis de convencer que somos apenas trabalhadoras comuns!  Para a maioria dos Portugueses  - imigrou, é nova, bonita, então é puta!  Muitas vezes nem precisa reunir esses requisitos; eu mesma nem era nova, nem bonita, no entanto várias vezes fui tachada de "puta", do nada!  Infelizmente, até os próprios conterrâneos são capazes que agir assim se você não estiver trabalhando.  Quando cheguei a Lisboa ainda tinha dinheiro para viajar, muitas vezes me perguntaram como eu tinha conseguido sem estar trabalhando - como disse antes, para eles (nativos ou não), nenhum(a) imigrante pode ter dinheiro ou chegar com dinheiro - tem que chegar sem "um tostão" e logo ir trabalhar ou ser puta, porque com eles(as) foi assim - como poderia, comigo, ser diferente?!

Por Elane F. de Souza (Adv. e Administradora deste Blog)
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