22 de dezembro de 2015

“Gordofobia”!

Gordos não tem vez em assentos de aeronave tampouco em transportes terrestres; gordos não tem vez nos empregos; nas novelas e filmes (a não ser nas comédias onde são ridicularizados com a finalidade do “riso”); são vistos pela maioria da população, em especial a população chamada “normal” (que vai a academia ou que “vive no regime”) como sendo pessoas sem autocontrole, desorganizadas e até “grotescas”.

Recentemente uma atriz de novelas aqui do Brasil, de renome nacional, quiçá internacional, teve o despautério de dizer que tinha repulsa a mulheres gordas (veja aqui R7,sobre Betty Faria ), todavia, mais tarde foi as redes sociais tentar explicar o que teria dito: “Questão de gosto: roupa de oncinha, unhas dos pés pintadas de vermelho... não gosto. Mas não é ofensa, por favor. Questão de gosto, tá?” (Leia mais aqui ExtraGlobo).

De fato, a vida das pessoas acima do peso não é nada fácil!  Não é fácil para eles, que podem sofrer com enfermidades que afetam mais quem está obeso; além disso afeta também a capacidade de locomoção, a autoestima e causa fadiga impossibilitando até a realização de algumas atividades; no entanto, posso garantir que também não é muito fácil para quem tem que viajar, por exemplo, ao lado de alguém que esteja gordo (IMC – Índice de Massa Corporal acima de 31). 

Geralmente quem viaja, mesmo que na classe econômica, quer um mínimo de conforto.  Viajar ao lado de alguém que esteja obeso “acaba” com qualquer viagem.  Imagine acordar sufocado por uma pessoa “deburçada” sobre você e que nunca “viu mais gorda”, digo, nunca viu pela frente?! Mesmo que não seja proposital isso é quase certo que irá acontecer se a viagem for longa e a pessoa ao lado for obesa – até os (as) magros (as), às vezes, deburçam para a cadeira vizinha e acaba incomodando.

Ainda que não esteja dormindo é difícil  se movimentar num banco de avião na classe econômica, imagime se tiver compartilhando espaço com algum gordinho.  O certo é que se você pagou pelo assento, mesmo que ele seja largo, espaçoso, você o deseja só para si!  Essa é a real.

Algumas empresas internacionais solicitam de seus passageiros gordinhos que comprem uma passagem a mais; é o caso da Air France e Southwest Airlines, por exemplo, mesmo pagando, mais tarde, um reembolso parcial sobre elas.  A United Air Lines solicita a passageiros que não caibam confortavelmente em uma só poltrona que comprem uma segunda passagem.   Já outras optam por cobrar por sobrepeso (quanto mais pesado(a), mais caro será o bilhete – é o caso da Samoa Air, da Oceania).

Apesar dos EUA ter cerca de dois terços dos adultos  acima do peso e/ou obesos, uma pesquisa feita em 2010, para um site de viagens chamado Skyscanner, 76%  dos viajantes disseram concordar que as companhias aéreas deveriam sim,cobrar a mais de passageiros que precisem de um assento adicional. Isso dará mais conforto a eles e seus “vizinhos” de poltrona.
Uma pesquisa dessas por aqui chegaria perto dos 100% se os entrevistados fossem honestos com as respostas. Se lá que tem 2/3 de adultos obesos a votação foi expressiva, imagine aqui. 

Num artigo anterior expus as distintas formas de preconceito e fiz um questionamento. Preconceito, é possível não ter”?

Existem tantas formas que seria hipocrisia de nossa parte dizer que nunca fomos preconceituosos ( Leia aqui o artigo em questão ).  Mesmo que você não seja “gordofóbico” se sentirá incomodado tendo que, praticamente, partilhar o seu assento num ônibus de viagem ou num vôo.  O que não te colocará no mesmo patamar de alguém que, sendo empresário, possua uma vaga e não deseje, não queira, um funcionário obeso; ou que tenha uma colega de faculdade acima do peso e não queira sua amizade pelo fato dele ser obeso. 

Uma coisa é ter que ficar no “aperto” durante uma viagem e calar-se, fingir-se conformado e generoso em demasia, outra bem distinta é deixar de dar emprego a alguém, ou não querer ser amigo por essa pessoa não apresentar padrões considerados ideais, perfeito para você, em se tratando de aparência (segregando a pessoa).

Mas, para ficar bem claro um adendo: gordura corporal em excesso é um perigo. "Uns 30% dos obesos podem ter um perfil metabólico e cardiovascular dentro da normalidade. Mas estudos mostram que pacientes com IMC (Índice de Massa Corporal, ou peso dividido pela altura ao quadrado) superior a 30 sempre têm risco aumentado para doenças cardíacas, vasculares, diabetes e câncer", diz o endocrinologista Lício Veloso, professor da Unicamp e pesquisador de mecanismos da obesidade.

No Brasil, o SUS gastava R$ 488 milhões anuais com tratamentos contra a obesidade (isso até final de 2012).  Segundo dados do Ministério da Saúde divulgados em agosto do ano citado, 51% dos brasileiros estavam acima do peso (sendo 17% obesos).

Em 2011, eram 48%. Campanhas por uma alimentação saudável e uma redução de peso são uma necessidade. O problema é que às vezes elas favorecem o aumento do preconceito. "Muitas pessoas desenvolvem um sentimento de rejeição pela obesidade mais pelos aspectos estéticos e comportamentais do que pelo risco médico", diz Veloso.  O que infelizmente é verdade!

Recordando a atriz que fez um comentário preconceituoso nos meios de comunição: hoje é difícil não gostar disso ou daquilo! Praticamente tudo é levado para o lado do preconceito, todavia expressar-se da forma como ela se expressou chega a ser nojento. Repulsa se tem desse tipo de pensamento e não de alguém que está acima do peso!

Gordura corporal não devia causar repulsa em ninguém, no máximo encarar como uma coisa não quer para si; também não deveria ser encarado como algo fora do comum, que mereça ser “escomungado”, distanciado, isolado. 

Ninguém é obeso porque quer.  Quem disser que sim estará sendo hipócrita da mesma forma que ela foi ao proferir palavras tão “baixas”.  Quem em sã consciência gostaria de estar exposto as doenças que afetam mais quem está acima do peso?  Quem em sã consciência gostaria de ter as coxas e nádegas cobertas por celulite, estrias, gordura localizada, barriga flácida e enorme? Quem em são consciência queria buscar, incansavelmente, por roupas, nas lojas (a maioria não tem numeração extra grande) e quando tem, nada “pega bem”; nada “assenta”, nada “cai bem”!

Nunca fui obesa, todavia, pela segunda vez, estou acima do peso e já me sinto incomodada e inconformada.  Nada mais me cai bem, sinto-me sem disposição; as bochechas estão, ainda maiores do que sempre foram; a barriga cresceu e por mais abdominais que se faça e cinta que se use a barriga teima em “parecer flácida”.  As celulites aumentaram, o braço engrossou de gordura (tudo tem aumentado), exceto a disposição e a autoestima!

Por outro lado também sei o que é estar, relativamente, magra; magra mesmo nunca fui – só nos sonhos!  Neles eu sempre sou magra como a Gisele Bundchen.  Meus mais doces e impossíveis sonhos!

Infelizmente também já tive o desconforto de viajar ao lado de uma pessoa, relativamente, obesa num vôo de curta distância e também numa de ônibus de longa distância.  É por essas experiências que decidi escrever este artigo.

Todos deveríamos conscientizar à respeito da obesidade.  Ela não é fácil para quem convive e/ou sente no corpo os efeitos, no entanto ninguém é obrigado a perder o conforto em detrimento de outrem.  A maioria da população não é a “Madre Teresa de Calcutá” – pensamos primeiramente em nós, depois vem os outros, essa é a verdade. Ao compramos uma passagem ou bilhete aéreo nunca imaginamos ter que dividir o pequeno, exíguo espaço existente com outro que se senta ao lado, mas que tem “pedaço” do corpo sobrando para o nosso.

Assim, espero não ser tachada de “gordofóbica”, no máximo deveriam tachar-me de egoísta, mas isso é outra conversa, é algo que ainda não foi tipificado.  Egoísmo não é crime, e “crise de realidade” e honestidade também não!

Autoria: Elane F. de Souza (Advogada e Adm deste Blog)


Foto/Créditos: queroperderpesocomsaude e  novidadediaria


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