30 de novembro de 2015

Porque não consigo acreditar em deuses?



Desde sempre questionei  a existência de um ser superior a nós. 

Da minha infância pouco me recordo, mas na pré adolescência, quando saí do interior, da fazenda onde meu pai trabalhava,  e fomos viver  na Capital do Estado,  passamos a conhecer mais pessoas, dentre elas estava uma família que parece ter ajudado meus pais com vestimentas para nós e até algo de alimentação. 

Essa era uma família testemunha de Jeová.

Era uma bela família.  Pessoas super de bem com a vida e de coração extraordinário! 

O pai era um “ancião”, ou seja, alguém que dentro do “salão do reino”, como são chamados os templos deles,  faz palestras  e divulga a palavra do senhor; além disso ele e sua esposa saiam nos domingos, para bater de porta em porta com a finalidade de pregar e ensinar a bíblia para quem quisesse ouvir.

Um dia bateram na nossa e meus pais, simpáticos que são, ouviram o que eles tinham para dizer.   Meus pais não sabem dizer não para quase nada.  Talvez por isso abriram as portas para eles.  

Felizmente eram boas pessoas - apesar de crentes!

Naquela época nos foi de grande ajuda.  Meus pais eram pobres que não podiam mais; eles também não eram ricos, mas tinham conhecimento dentro do salão do reino com pessoas de mais recursos.  Com isso ajudaram meus pais com roupas para nós (filhos pequenos) e de vez em quando até apareciam com algo de comida para ajudar nas despesas.  Teve uma vez que o Senhor, esse que eu disse no início se tratar de um pastor (Ancião) até ajudou meu pai na construção de um banheiro pois o nosso era o caos total  - a qualquer momento podia se rebentar com alguém dentro e, literalmente, essa pessoa se afogar na merda!

Porque conto essa história?

Porque eu, meus irmãos e meus pais passaram a frequentar esse tal salão do reino das testemunhas de Jeová. Eu devia ter  10 ou 11 anos no máximo.  Na verdade eu os acompanhava porque não podia dizer não e muito menos ficar em casa sozinha.  Para mim sempre foi um custo, um sacrifício muito grande essa coisa de ficar ouvindo falar da bíblia, de histórias fantásticas de mortes, traições, adultério, guerras, cobra falante, peixe que engole pessoa e ela sai viva,  dilúvio e arca de Noé, mulher transformada em sal, pai que "come" as filhos e fica tudo beleza, cidades inteiras destruídas por deus por vingança, rio que se abre do nada, comida que cai do céu…., isso tudo eu nunca “engoli”, mesmo sendo uma criança achava tudo muito fantasioso. 

Quando eu acreditava em algo, aquilo era transformado em medos noturnos de morte, de diabo que vinha me pegar porque era uma descrente; além disso tinha pesadelos com o mundo acabando em fogo (pois diziam que não seria mais com água).  Isso transformou a minha vida, que já não era fácil, em algo ainda mais difícil. 

Um belo dia, quando já era adolescente, decidi que não iria mais estudar a bíblia nem seguir indo ao salão do reino. 

Tinha vontade de andar de mini saia, beijar na boca quem me desse vontade e não ter que namorar para casar; além disso, gostava de ver as revistas de sexo que meus irmãos tinham escondido debaixo da cama –  sentia prazer em vê-las e vontade de fazer o que estava sendo feito ali.

Sabia que tudo isso era condenado pela minha “igreja” e também pela bíblia.  Como poderia seguir indo ao salão do reino e ao mesmo tempo fazer e/ou pensar em coisas que são condenadas por eles, por deus e pela bíblia?

Hoje sei, tenho certeza, que muita gente faz tudo isso e muito mais e segue alguma religião que condena tais atitudes; todavia, na época eu acreditava que uma coisa anularia a outra – deus não me aceitaria no paraíso, mesmo eu tendo sido uma pessoa boa e honesta em todos os outros quesitos.  

Achava injusto aquela história de que deus perdoaria alguém como “Barrabás”  na última hora e eu, só por ter desejos sexuais e andar de mini saia, seria condenada por ele ao inferno (pois não teria feito tudo como ele queria).   Foi assim que “chutei o pau da barraca” e nunca mais apareci  na igreja nem fiz leituras com a “pregadora” que ia lá em casa.

- Já que iria para o inferno que fosse por merecimento.  Esse era o meu entendimento na adolescência.

O tempo passou e descobri que sofri  à toa.   O inferno não existe e muito menos deus.  Tudo isso é invenção humana  para impôr medo à população e hoje, mais uma forma de enriquecimento.   Em cada “esquina” uma nova seita é criada – um novo deus é inventado.  Sempre impiedoso e onipotente.  Ou segue à risca o que ele prega ou morrerá  queimado nas mãos de um “diabo” qualquer que eles também inventam. 

O pior disso é que nenhuma dessas religiões te isenta do pagamento  de dízimo!   Essa sim é uma obrigação como a que se tem com os impostos.  “Ou paga o IPTU ou perde a casa”.   “Ou paga o dízimo ou vai para o inferno , pois ninguém rouba de deus”.

Felizmente, dentro dos templos de qualquer culto existem pessoas de bem; boas de coração que faz tudo de melhor que ensina a bíblia (apesar de tudo a bíblia também ensina coisas boas - poucas, mas existem), mesmo que o façam pensando numa recompensa em outra vida; é o caso dos seguidores da seita dos testemunha de Jeová que ajudaram meus pais nos momentos mais pobres  e difíceis de nossas vidas. 

No entanto existem pessoas que mesmo seguindo alguma religião e sabendo o que tem que fazer para obter a tal recompensa, faz tudo o contrário.  Essas pessoas talvez acreditam que só pelo fato de frequentarem a religião tal, pagarem o dízimo e lerem a bíblia já serão salvas.  Eu por muito menos abandonei tudo!

Corrupção, assassinatos, fornicação, adultério, mentiras, falsidades, furtos, falta de decoro e ética são os “pecados” mais comuns hoje em dia, praticados  por quem acredita em deus.  Quem nunca ouviu falar de um sicrano ou beltrano que faz tudo isso e é evangélico ou católico ferrenho?

Se por um acaso eu estiver enganada e houver um deus como o da bíblia que condena tais coisas, essas pessoas serão condenadas. 

Perderam o tempo frequentando uma igreja,  pagando dízimos à toa e tendo que fingir o que não são!  Podiam ter aproveitado esse tempo aqui na terra e o dinheiro em algo mais produtivo.

Por outro lado o deus da bíblia também mata, é intolerante, homofóbico, racista; talvez as pessoas que o seguem agindo assim, apenas os estão imitando!

Hoje, se viesse a ter um filho jamais o obrigaria, muito menos deixaria que alguém o ensinasse baseando-se na bíblia.  Isso provoca medos que não deveriam fazer parte da vida de uma criança, além de dúvidas e incertezas quanto a vida e a morte.  A pessoa só deveria ler a bíblia depois de adulta se ela vier a achar que convém.

Ler a bíblia para mim durante a pré adolescência, quando era uma menina “caipira”, todavia de pensamentos leves, foi a mesma coisa que ler um livro de terror – os medos apareceram, os pesadelos também e juntos a tudo isso uma anurese noturna (xixi na cama) até os 13 anos.  

Portanto, não aconselho  a nenhum pai “tocar esse tipo de terror” em cabecinhas ainda não formadas.  Deixe a criança ser criança!


Autoria: Elane F. de souza (OAB-CE 27.340-B), tendo como fonte a própria vida
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