20 de novembro de 2015

Brasileiro, povo de segunda categoria!

Alguns fatos me fizeram chegar a esse título tão impactante. 

Um deles foi o fato dos brasileiros aceitarem pagar por um carro produzido aqui o dobro do que ele é vendido lá fora. 


Povo Brasileiro
A resposta será sempre a mesma:  “são os impostos elevados, calculado sobre toda e qualquer peça utilizada na montagem, além disso a mão de obra aqui também  não é das mais baratas, todavia não é a mais cara” – portanto, a explicação deveria ser melhor.

Veja o trecho de uma reportagem que o G1 um fez com um economista este ano:

Tem alguns mistérios nessa indústria. A gente tenta entender. Algumas respostas a gente tem e outras não. Carros são caros no Brasil. Na verdade, muito caros. Para você ter uma ideia: quando você pega um sedan que custa R$ 85 mil no Brasil; em outros países, como nos Estados Unidos, custa menos da metade. As justificativas são várias. Primeiro, o imposto. No Brasil, a gente paga muito imposto. Aí você tem um imposto sobre imposto. Você tem um imposto na autopeça. Na hora que monta o carro tem outro imposto. Então, você tem um imposto em cadeia. Na geração da produção tem muito imposto. A mão de obra aqui não chega a ser a mais cara do mundo, mas é cara quando se olha a produtividade. O brasileiro tem uma produtividade relativamente baixa.
Bem, o fato é que o preço é maior e nós pagamos; aceitamos essa critinice feita pelo setor e por nossos governantes. 

O boicote seria uma solução!  Comprar carro importado e dane-se a indústria nacional!  - Até quando seguiriam assim, com preços tão elevados, sem realizar nenhuma venda?  

Infelizmente o povo aceita e os governantes seguem “metendo” impostos em tudo que é vendido ao nacional – se vai para o exterior, fazem uma “mágica” e ele chega lá  mais barato que é vendido aqui, apesar dos custos da viagem e de alguns impostos.  Juro que gostaria de descobrir como isso é possível! 

Uma coisa é sair de Recife para João Pessoa de carro, outra bem distinta, é pegar o mesmo carro e ir para o Rio Grande Sul saindo da mesma cidade (Recife).  Qualquer analfabeto saberia dizer que iria gastar muito mais no segundo caso.

Outro fator que me fez pensar  na posição que o Brasileiro  se encontra  frente aos povos Europeus e Americanos é o preço e a qualidade das frutas e legumes. 

Aqui, a maioria quase esmagadora dos supermercados vendem frutas, verduras e legumes em estado deplorável.  Quantas vezes fui aos mercados de minha cidade (já morei em várias, aqui e fora do Brasil) e tive que  questionar se aquilo que estava exposto à venda seria para jogar no lixo!?

É evidente que já sabia de antemão que não era, senão como poderiam estar ali, expostos à venda e a preços exorbitantes?   Sei que a maioria vai dizer que eu frequentava supermercadinhos da periferia, “furreca”, que vendem coisa passada.  Mas não, era o contrário disso.  Eram supermercados de grandes redes – populares, é claro.   Não eram supermercados gurmets, mas eram das maiores redes do país, que deveria se envergonhar em oferecer a população produtos de tão má qualidade.  

Na verdade, a maioria das cidades desse país, só oferecem frutas e verduras com alguma qualidade quando são vendidas nas feiras.  Quando o pequeno produtor e o freguês se encontram, de verdade, sem atravessadores.  

Os grandes produtores enviam seus  melhores produtos para fora do Brasil.  Certamente eles entendem que o povo brasileiro aceita qualquer coisa, os outros povos não.  O que sobrar enviam para os grandes supermercados daqui, que querem pagar pouco e cobrar caro do cliente. 

Infelizmente é assim que funciona, é assim que vivemos: das sobras dos americanos, europeus e até dos argentinos – e o pior disso tudo, que é a sobra do que nós mesmo produzimos.   Mas a culpa é nossa - deixamos!

Por último, mas não menos importante, mensiono o despacho de um Embaixador Inglês no Brasil do final da década de 60  (1968/69), na época do então Presidente/ Ditador Brasileiro,  General Costa e Silva.

O despacho foi direcionado, claro, as seus superiores na Inglaterra.  Continha erros mas também acertos, acerca de nossa língua, cultura e modos de vida.

Esse e outros despachos de  john Russel (nome do embaixador que deixava o posto em 1969)  foram transformados em um relato de quatro páginas, com a edição dada por Matthew Parris, ex diplomata,  colunista, escritor  em cooautoria  com Andrew Bryson, na época jornalista da BBC  o qual deram o nome de "Parting Shots", podendo ser traduzido para nossa língua  como "Atirando na saída", é definido na capa como "Diplomatas nada diplomáticos – as cartas de embaixadores que você nunca deveria ler".




Como leitura já valeria a pena. Pelos erros grosseiros, mas também pelos acertos, pela contundência nas avaliações, conclusões e opiniões, e por permitir a prospecção de como o embaixador inglês percebia o país. E como informava o governo da Inglaterra sobre o que, na sua percepção, era o Brasil.

Seis meses depois da rainha Elizabeth e o príncipe Philip serem ovacionados nas ruas de Copacabana, e recebidos pelo ditador de plantão, Costa e Silva, o embaixador inglês mandava seu último despacho. O título:

- (Brasil) Ainda, tremendamente, um povo de segunda classe.

O despacho, como relatado no livro, foi "calorosamente analisado" pelos superiores de Russel no governo inglês.

Resumo de como foi recebida a carta de John Russel:

- Neste muito legível e altamente pessoal despacho, Sir John Russell descreve o caráter extraordinário do Brasil e lança ocasionalmente um bem merecido insulto ao seu povo.

Logo no segundo parágrafo da carta, diz Russel:

- Numa porção do arco-íris brasileiro você tem tribos da idade da pedra vivendo nas profundezas das florestas e ainda praticando atos de canibalismo e sacrifício humano e que ainda não (para alegria deles) encontraram os homens brancos…

Prossegue o embaixador:

-…No outro extremo, você encontra São Paulo, que já ultrapassou a marca dos seis milhões e agora é a terceira maior cidade da America Latina.

Conclui Sir John Russel, sobre a cidade de São Paulo:

-…e também, sem dúvida, a mais feia.

Ao fazer previsões demográficas, o embaixador, diante da taxa de crescimento de então, chuta e erra:

- O Brasil apresenta um quadro extraordinário. A população de hoje, que é de cerca de 92 milhões, está crescendo numa taxa de 3.4% por ano e atingirá a marca de 225 milhões em 2000.

Na questão racial, outra previsão de Russel:

- Dentro de uma ou duas gerações, a questão racial terá deixado de existir. Nessa época não existirão nem brancos identificáveis nem negros identificáveis.

Escreveu o embaixador sobre essa mesma questão:

- Nos Estados Unidos uma gota de sangue negro torna um homem branco, preto: aqui uma gota de sangue branco faz de um homem preto, branco. (Um pouco de dinheiro faz o mesmo). Fusão é a ordem do dia e as diferenças se dissipam mais rápido.

Do futuro dos índios, apostou o embaixador:
- Daqui a poucos anos também se verá o desaparecimento dos últimos índios da floresta, finalmente oprimidos na luta desigual contra o homem branco e sua brutalidade, suas armas, seus presentes letais históricos, sua exploração, suas doenças…

No início de um dos parágrafos, o embaixador elenca qualidades do país: florestas, minérios, energia hidrelétrica em abundância, e pergunta:

- Por que, então, o Brasil ainda não está rico e próspero?

Ele mesmo responde:

- A resposta é curta. É porque o Brasil é terrivelmente mal administrado, porque tem 5 bitolas diferentes nas estradas de ferro; porque a Guanabara tem mais funcionários públicos do que New York, e a Petrobras, só no estado de São Paulo emprega mais químicos do que a Shell emprega em todo o mundo; porque você pode comprar tudo, de uma carta de motorista a um juiz da corte federal…

E continua, em seu despacho para o governo inglês:  

-… porque o reitor da universidade federal do Rio ganha US$ 500 por mês, enquanto os aluguéis aqui são três vezes maiores do que em Londres, e os hotéis do Rio estão entre os mais caros (e também os piores administrados do mundo); porque só existem 18.000 milhas de estradas pavimentadas no país; porque em 1968 os brasileiros mataram 10.000 pessoas – só um pouco mais do que o total de perdas no Vietnam durante o mesmo período…

O embaixador ataca o que entende ser "a vaidade corrupta e ruinosa de Juscelino Kubitschek" e a transferência da capital para Brasilia, "aquele monumento  desenfreadamente remoto e que não funciona".

Ao analisar aqueles dias de ditadura e resistência, informou o então embaixador:
- Os alunos são reprimidos… os comunistas são poucos e mal organizados e a única coisa deles que não é underground é o fantasma do Che Guevara – (…) A igreja está dividida… a imprensa amordaçada, os intelectuais exilados ou sem coração: um esforço fraco e desarticulado.

Quanto à sociedade brasileira, dispara:

- A classe média em expansão marcha indiferente e se preocupa apenas em obter as boas coisas materiais da vida…

- Os pobres do Brasil ainda não chegaram lá, mas agora está em aberto a questão de quanto tempo mais eles se contentarão em continuar usando a enxada na sua estrada desesperançosa…

No final de seu despacho, John Russel fala sobre os seus três anos no Brasil da ditadura:

- Materialmente o país galopou para frente, politicamente foi pra trás… Os coronéis da linha dura confiscaram o desenvolvimento espiritual de um país de instintos criativos liberais e com uma enorme capacidade intelectual…

John Russel diz não se sentir mais tentado a "comentários cáusticos sobre os defeitos no caráter dos brasileiros", como havia feito no seu primeiro despacho, três anos antes.

Diz também que se o governo brasileiro "ficou mais duro", ele, Russel, deve ter "amolecido, suavizado". O embaixador inglês termina sua carta analisando os efeitos do Brasil sobre si mesmo:
- Talvez eu tenha me rendido ao charme traiçoeiro do Rio tropical: talvez eu tenha apenas aprendido a amaciar meus padrões austeros do norte, para ver as coisas de uma forma um pouco menos puritana neste clima complacentemente quente…

Nas últimas linhas, Sir John Russel, o embaixador inglês no Brasil no final dos anos 60, faz um último disparo, seguido por uma concessão:

- Os brasileiros ainda são tremendamente pessoas de segunda classe: mas obviamente eles estão a caminho de um futuro de primeira classe.

Conclusão:

Infelizmente tenho que concordar com grande parte do que foi dito pelo Embaixador.   Tantos anos depois e quase nada mudou.  Com exceção do regime de Governo, das previsões que ele fez sobre a população  futura (em relação a época que vivia) e quanto aos índios (já não havia canibais, e as outras etnias que existiam, a maioria, segue existindo – em menor número, claro)

O Brasil não só era um país de pessoas de segunda classe – segue sendo e não sei quando deixaremos de ser.

- Somos explorados por nós mesmos a cada dia;
- Se naquela época o Brasil “galopou materialmente para frente e politicamente para trás”, hoje ele faz as duas coisas, PARA TRÁS;
- É politicamente mal administrado, AINDA HOJE;
-Tem um número excessivo de servidores públicos (antes mais), todavia segue tendo, quando comparamos com outros países do mundo;
- A Petrobrás foi citada por ele desde aquela época como sendo uma Empresa super mal administrada. Há quarenta e seis anos já tinha mais gente do que deveria “mamando em suas tetas” ;
- Fala sobre o preço e o serviço oferecido pelos hotéis do rio (preços três vezes mais altos que da Inglaterra e o pior serviço do mundo) no que concordo até hoje (quem viajou muito ou viaja, sabe disso);
- Fala da violência de então (que em 1968 os brasileiros mataram 10.000 pessoas – só um pouco mais do que o total de perdas no Vietnam durante o mesmo período)…, nada a declarar de como vivemos hoje – AHHH se ele soubesse como isso aqui está!

Quase tudo do que ele disse antes, com algumas excessões, pode ser visto ainda hoje – 46 anos depois e o Brasil em praticamente, nada mudou. 
O povo e seus administradores seguem sendo os corruptos que sempre foram.  A administração é péssima – no que temos imensa culpa;
Se a Petrobrás precisa de 1 químico ela contrata quatro (afinal,  tem que ser de 1 de cada partido político).   Se ela faz licitação para alguma prestação de serviço paga 10 vezes mais do que o real valor do serviço e ainda dá algum por fora.

Além disso, somos  improdutivos e preguiçosos. 
Se na Inglaterra, França, Alemanha, Espanha, EUA se contrata 1 para apertar parafuso, aqui se contrata três para apertar o mesmo tipo de parafuso .

Portanto, ao nos compararmos com muitos povos espalhados pelo mundo somos sim um povo de segunda categoria – mas isso é porque deixamos; potencial nós  temos para ser o povo “pica das galáxias”, basta querermos!   Espero que não façamos o contrário – cair para a “3º divisão”  seria a derrocada!


Autoria: Elane F. de Souza (Advogada OAB-CE)


Foto/Créditos: youtubecom


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